As Heresias da Igreja Antiga




Um grande desafio para a igreja antiga foi à famosa controvérsia ariana. Esta ocorreu no século IV envolvendo o presbítero Ário de Alexandria. Para Ário, era inconcebível a ideia de um Deus imutável, transcendente se encarnar. Ele Defendia que o Filho e o Pai não tem a mesma essência (ousia); que o filho é um ser criado, mas que em termos de origem e grau, ele deve ser reconhecido em primeiro lugar entre os seres criados; e que embora o Filho seja o criador dos mundos, existindo antes dele, houve um tempo que ele não existia[1]

 O arianismo foi condenado no Concílio de Nicéia (325), o primeiro Concílio Ecumênico da Igreja. Atanásio foi o principal opositor do arianismo. Segundo Atanásio, nenhuma criatura tem o poder de redimir outra criatura, para Ário, Jesus é uma criatura, logo ele não poderia redimir a humanidade. Atanásio afirmava que somente Deus pode salvar, se Jesus Cristo é salvador, logo ele é Deus. [2]

O Concílio de Nicéia defendeu a doutrina de que Jesus tem a mesma substância que o Pai, “homoousios”. O Credo niceno proclama: “[...] gerado, não feito, da mesma substância do Pai.

 Se de um lado a divindade de Cristo sofreu vários ataques, do outro a sua humanidade também fora ameaçada por grupos de características Gnósticas. O termo gnóstico tem sua origem na palavra grega “Gnose” que significa conhecimento. Tratava-se de um movimento multifacetário e sincrético, que combinava elementos do judaísmo, do cristianismo, da filosofia grega e religiões orientais.

O gnosticismo não era uniforme em suas doutrinas, mas havia elementos em comum em suas vertentes, como por exemplo a rejeição a matéria e a sua visão dualística do mundo.  O gnosticismo via a matéria como sendo má, e o espírito ou mundo espiritual como sendo realidade superior e bom. Se a matéria é má, Cristo não tinha um corpo físico real, e o universo material não poderia ter sido criado por um Deus bom. Este tipo de ensino já estava sendo desenvolvido desde os dias apostólicos, João combateu este gnosticismo embrionário em sua 1 carta no capítulo 4.2-3: “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus [...]”.

O Credo de Nicéia em alguns pontos confrontou diretamente o ensino gnóstico, “Creio em um só Deus, Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis. O Credo apresenta Deus como sendo o autor da realidade não apenas material, mas também imaterial. Assim como ele afirma que Jesus nasceu de uma mulher. “se encarnou pelo Espírito Santo no  seio da virgem”[3]

Uma das vertentes desse tipo de ensino foi o docetismo, o termo é derivado do grego “dokein”, parecer.

 

Para os docetas, adeptos de uma heresia surgida em fins do primeiro século, Cristo não foi plenamente encarando na carne, pois a matéria é intrinsecamente má. As epístolas de Colossenses e João argumentavam contra esta noção pré-gnóstica. [4]

 

 

A onda gnóstica trouxe grandes agitações para a igreja nascente, principalmente por meio Marcion, que por volta do segundo século ele ensinava que Jesus não tinha um corpo físico; que o Deus do Antigo Testamento não era o mesmo Pai de Jesus. Que ele era o autor da matéria, portanto não era o Deus bondoso revelado no Novo Testamento. Marcion criou um cânon, rejeitou os Escritos do Antigo Testamento e preservou como sendo inspirados apenas as cartas Paulinas e o Evangelho de Lucas (retirando dele os elementos que ele considerava judaizante). Marcion tinha uma teologia “anti-judaica”.

Algumas correntes de características gnósticas faziam distinção entre Jesus e o Cristo. Segundo essas vertentes, Cristo (divino) se apoderou de Jesus (humano) por ocasião do seu batismo e o abandonou na cruz. Um dos defensores desta doutrina era Cerinto, que viveu em Éfeso na época em que as cartas de João estavam sendo produzidas[5]

 A resposta da igreja a tempestade de heresias veio por meio do Cânon do Novo Testamento, assim como pelos credos que foram formulados nos Concílios Ecumênicos objetivando proteger a sã doutrina.  

Autor: Rev. Nilson Santos

Extraído do livro: NARCISO, R.;BREVES, G.;SANTOS, N. Solus Christus: Cristologia para hoje. São Paulo: Fonte Editorial, 2018. 



[1] MCGRATH, Alister. Heresias – Uma história em defesa da verdade. São Paulo: Hagnos, 2014, p.180-181.

[2] MCGRATH, Alister E. Teologia Histórica. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2007, p.64.

[3] GEISLEr, Norman L. ; MEISTER, Chad V. Razões Para Crer - Apresentando Argumentos A Favor da Fé Cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p. 103.

[4] Ferreira, Franklin.; MYATT, Alan . Teologia Sistemática: Uma análise histórica, bíblica, e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 487.

 [5] MCGRATH, Alister. Heresias – Uma história em defesa da verdade. São Paulo: Hagnos, 2014, p.143.

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